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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Curioso que se invista tanto



Estrangeiros apresentaram comportamentos atípicos
Os Investimentos Estrangeiros Diretos somaram US$ 5,9 bilhões, no mês de maio. O número surpreende a todos, exatamente no momento em que se cristaliza a crença sobre a perda de atratividade do país para os investidores internacionais. Na realidade não há que estranhar, pois dinheiro destinado a integrar a produção nacional tem lógica bem diferente do dinheiro de especuladores. Interessante também notar que o IED acumulou US$ 66,5 bilhões de maio de 2013 a maio de 2014, equivalendo a quase 3,0% do PIB nacional. O registro mais interessante, nesse particular é a entrada para investimentos em ações. Uma loucura que saiu dos US$ 650 milhões no mês anterior para nada menos que US$ 5,5 bilhões, em maio. Durma-se com um barulho desses. 
A renda fixa esteve em queda, com saídas líquidas de US$ 32 milhões, em maio, apesar da Selic. Para os próximos meses é de se esperar por número menores, mas nada que ponha em dúvida a capacidade do IED financiar parte do déficit em conta corrente projetado para 2014 em algo na casa dos US$ 80 bilhões.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Sobre o último pacote (1)

Erros aprendidos e erros não aprendidos.
Não há dúvida que no Brasil de hoje os investimentos devem ser incentivados. Nesse sentido, há que se aplaudir as medidas finalmente anunciadas pelo governo federal. O pacote mostrou que algumas coisas foram aprendidas e assimiladas pelo governo e outras não.
Entre as não aprendidas, destaca-se:
1)      Investimentos só se perfazem, em qualquer país, se, e quando, houver mercado com dimensões suficientes para retornar os capitais investidos. Sem mercado é as razões para eles desaparecem.
2)      É preciso garantir condições institucionais que ofereçam segurança jurídica aos aportes esperados e que os mantenham isentos das mudanças de regras durante um longo período. O intervencionismo estatal é por isso mal visto, embora sejam aceitas regulações e fiscalizações que não cerceiem a livre iniciativa.
3)      Fundamentos econômicos não podem sofrer flexibilizações, sob pretexto de ampliar o consumo, aumento de renda ou o nível de emprego. O fim dessa história é conhecido como inflação elevada e suas consequências mais cruéis.
Em relação ao que se aprendeu, o pacote mostrou a impropriedade de estabelecer prazos para duração das bondades. O que se espera é que decisões, como a do Reintegra, transformem-se em política econômica, descaracterizando subsídios temporários, com prazo de validade estabelecido no rótulo, por medida provisória. Ninguém tomará uma decisão de investimento em uma economia se souber que as condições que sustentam a decisão deixarão de existir a partir de tal data. Isso parece que o governo entendeu.
Por fim e independentemente dos méritos desse pacote, será forçoso reconhecer que o governo apenas produziu esse conjunto de medidas para reverter sua má avaliação entre empresários, com olhos em sua reeleição. Não porque creia em economia de mercado ou porque se identifique com a livre iniciativa. O empresariado sabe disso e não gostaria de ver esse governo no comando da economia nos próximos anos.
De fato, as empresas receberam um agrado insuficiente, um afago, acompanhado por sorrisos falsos. Um abraço. De tamanduá.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

É preciso ser áspero com a inflação

Juros altos, o santo remédio para inflação
Na segunda prévia do mês de junho, o IGP-M apontou deflação de -0,64%. Não há surpresa nisso, depois do tratamento que o Banco Central dispensou à inflação, elevando muito e sucessivamente a Selic. A tendência de queda nos preços é uma realidade óbvia em ambientes com baixa atividade econômica. Forçoso reconhecer que inflação tem um bom inimigo na redução de demanda.
Já se espera por igual desaceleração no IPCA-15, sobretudo pela redução dos aumentos de preços no setor de alimentação. Os hortifrutigranjeiros são menos demandados, segundo os dados referentes ao atacado, onde os preços caíram mais fortemente. Os combustíveis devem contribuir também para a redução da inflação, em especial o etanol, responsável pelo péssimo desempenho do setor sucroalcooleiro. Por outro lado, não se espera pela redução do índice de difusão, de vez que as pressões da demanda ainda são exercidas de forma generalizadas sobre os preços da economia.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Protegendo?

Ao preservar, podemos estar destruindo
Longe de querer “ensinar o Padre Nosso pro Vigário”, o fato é que as pesquisas apontam remanescer um potencial de mercado crescente e abandonado pelo sistema bancário e que deliberadamente busca por alternativas de financiamentos, mesmo que a custos significativamente mais elevados. Financiar esse expressivo segmento da economia nacional pode levar a perdas, como nos ensinam os melhores banqueiros; não financiá-los levará às deseconomias de escala, pressionando custos, spreads e juros nos seletos segmentos hoje servidos. Há até quem preconize um novo movimento de desintermediação bancária que, se ainda não ocorreu mais claramente, foi pela presença nesse segmento dos bancos públicos, cujos ativos cresceram expressivamente nesses últimos períodos. Em momento de baixo crescimento não se pode ignorar na prospecção de novos negócios a existência de segmentos ativos. Também não se podem perder negócios entre os clientes atuais. Esses clientes buscam por outros bancos para realizar as operações que o seu principal banqueiro não quis fazer. Há uma nítida desconcentração dos negócios dos clientes em bancos concorrentes. O cliente, desfidelizado, se vê obrigado a trabalhar com um número maior de bancos para ver suas necessidades financeiras atendidas. As deseconomias de escala, ou de escopo, a renúncia a segmentos ativos com risco mais altos, mas ainda administráveis, o enxugamento do portfólio de crédito, a consequente desintermediação bancária e a desconcentração dos negócios dos clientes atuais por um número menor de bancos respondem atualmente pelas piores pressões sobre custos e receitas dos bancos.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Enquanto se disputa a copa

Falta velocidade ao PIB Brasileiro

O IBC-Br apenas confirmou o que já se sabia: um crescimento miserável de março para abril de 0,12%. Na comparação com março do ano anterior o recuo foi de -2,3%. Na opinião de analistas, o segundo trimestre desse ano deve apresentar crescimento nulo, uma rara proeza do intervencionismo governamental. Por outro lado, para o ano todo, isso pode ser ainda pior, com o PIB frequentando o território dos números negativos. A surpresa agradável veio da China, com publicações de novos indicadores econômicos:

  • As vendas no varejo mostraram um crescimento de 12,5%em mio, ante maio de 2013, acelerando o crescimento em relação aos 11,9% do mês anterior. 
  • O investimento em ativos fixos urbanos mostrou expansão de 17,2% até o mês de maio em comparação ao mesmo período do ano passado. 
  • A produção Industrial cresceu 8,8%a/a também em maio, repetindo praticamente a mesma taxa do mês anterior. É de dar inveja.

    quinta-feira, 12 de junho de 2014

    Comércio administrado e não livre-comércio

    Brasil e da Argentina assinaram novo
    acordo automotivo, por um ano.
    Interessante notar a forma com que o acordo Brasil-Argentina sobre exportações de automóveis e autopeças foi apresentado ao público brasileiro: Chamou-se de “Novas Regras de Livre-Comércio de Veículos”.
    Trata-se de inovação na nomenclatura do comércio mundial, envolvendo a expressão “livre-comércio” que se fosse livre, não precisaria de acordo algum. Sem dúvida, mais um intervencionismo, com chapa branca, de ambos os lados, costurado em área de livre-comércio.
    De qualquer forma, os termos da inexistente liberdade comercial envolvem as seguintes cláusulas principais:
    1. Para cada 1 milhão de dólares em automóveis comprados da Argentina, sem imposto de importação, o Brasil poderá exportar até 1,5 milhão, também sem imposto na Argentina.
    2. Fica mantida a relação de mercado que é de 11% de veículos argentinos no mercado brasileiro, contra 44,3% de unidades brasileiras, no mercado argentino.
    3. Volta o sistema “flex”. O sistema “flex” fazia parte do último acordo com os argentinos.
    4. Manutenção, em ambos os setores produtivos, de uma participação mínima nos respectivos mercados de veículos, de 11% de automóveis argentinos no Brasil e 44,3% de brasileiros na Argentina.
    5. Entrada em vigor em 1° de julho e vale até 30 de junho de 2015.

    Até junho do ano passado, para cada US$ 1 importado do país o Brasil podia vender US$ 1,95. Quando o acordo venceu, foi renovado até o meio deste ano. A verdadeira intenção da indústria brasileira é a de manter o fluxo de comércio, mas para isso terá que aumentar a complementaridade produtiva com o país vizinho.
    Todas essas regras precisarão ser removidas para realmente chegarmos ao que se chama de livre-comércio.

    segunda-feira, 9 de junho de 2014

    Governo encalhou na areia movediça

     Pântano engole a política econômica


    O IPCA de maio foi de 0,46% em relação ao mês anterior. Sem dúvida mais baixa que o número anterior, mas acima do que os analistas estavam esperando. Agora, em doze meses a inflação é de 6,38%. Sem nenhum esforço fiscal mais robusto, nossa previsão é de 6,5% para 2014, com um PIB na casa de 1,6% nesse ano. Só de lembrar da expressão estagflação, o pensamento empresarial se arrepia e nos lembra que, em épocas com essas características, melhor é manter a maior liquidez possível. As vendas do varejo já são medíocres e o IBGE anunciou que produção industrial recuou em um bom número de regiões em abril. A queda na produção industrial em abril foi de 0,3%. Empresários queixam-se da falta de capital de giro. Consumidores reclamam da falta de crédito para rodar suas dívidas. O varejo precisa de dinheiro para financiar estoques e impostos. Serviços assistem a queda de suas vendas. Forme liquidez, enxugue custos, renegocie prazos em vencimento.

    quinta-feira, 5 de junho de 2014

    Desânimo vem junto com a Copa

    O desânimo tomou conta
    dos agentes econômicos
    A confiança dos empresários deve continuar limitada pelo anêmico crescimento doméstico, mesmo depois dos anúncios de medidas e do otimismo declarado pelas autoridades governamentais. A razão é óbvia: empresário não pauta ações com base em discursos.  Qualquer recuperação mais forte só pode ser pensada a partir de em 2016 e isso sempre que haja uma aceleração do PIB e transformações positivas, de cunho liberal, na política macroeconômica. Em relação ao segundo semestre desse ano e a todo ano de 2015, parece haver entre analistas e agentes econômicos, uma percepção crescente acerca de uma provável recessão. Na base dessa percepção estão presentes a queda das vendas, os aumentos nos níveis de estoques de produtos acabados, a redução do consumo e a redução da oferta de crédito. A perda dos fundamentos econômicos, associada a altas taxas de juros, foram fatais para qualquer sonho de investimento que o agente acalentava. Agora, resta esperar pelo aumento da velocidade das privatizações.

    terça-feira, 3 de junho de 2014

    Câmbio: Tendência de Depreciação

    Conjugação de ambiente global mais incerto com conjuntura atual da economia brasileira deve prejudicar fluxos de capitais.
    Contribuição de Roberto Padovani.
    Economista-Chefe da Corretora Votorantin 
    Apreciação cambial de curto prazo influencia pouco as expectativas. A apreciação recente da moeda brasileira produziu impactos moderados sobre as projeções para o final deste ano e 2015, que continuam operando em patamares próximos a 2,40 e 2,50, respectivamente. Em linha com o mercado, nossa visão é de que a moeda deverá se depreciar em relação aos patamares atuais.
    Fundamentos revelam tendência de depreciação. Nossos modelos de longo prazo são explicados, em grande medida, por diferencial de juros, diferencial de crescimento e resultado de conta corrente. O déficit em conta corrente deve apresentar alguma queda somente a partir de 2015, mas ainda assim continuará pressionado, e a tendência para os juros norte-americanos é de alta. Além disso, a economia brasileira continuará apresentando taxas de crescimento mais baixas que a média mundial. Portanto, esses fatores sustentam um cenário diferente do observado no período 2002-2011, quando havia uma clara tendência de apreciação cambial. Os fundamentos sugerem agora uma tendência de depreciação da moeda brasileira.
    Níveis correntes do câmbio não devem ser mantidos. Além do fato de os fundamentos sugerirem uma tendência de depreciação de longo prazo, nossos modelos de curto prazo também indicam um movimento de depreciação. Se, por um lado, a economia chinesa caminha para um crescimento mais moderado, inibindo altas expressivas de preços de commodities, acreditamos que a continuidade da retirada de estímulos pelo FED elevará a aversão a risco dos mercados. Em particular, acreditamos que os atuais níveis das treasuries não são sustentáveis e refletem uma leitura excessivamente acomodatícia de política monetária.
    Cenário local pode acentuar depreciação. A conjuntura atual da economia brasileira pode reforçar a tendência de depreciação no curto prazo. Não apenas em função de um círculo vicioso de baixo crescimento, inflação elevada e deterioração de confiança, mas também do atual estágio das políticas monetária e fiscal: o banco central parou de subir juros, enquanto o viés da política fiscal voltou a ser expansionista. Ainda, o risco fiscal aumentou com a possibilidade de grandes pacotes de resgate a setores específicos, como os de energia e o bancário. O único contraponto relevante, neste contexto, é o fato de que aumentos na competitividade eleitoral têm se mostrado um atenuante do enfraquecimento do real.
    Ingressos de capitais devem perder força. Acreditamos que a maior parte do aumento recente dos fluxos de capitais para os mercados emergentes ocorreu em um contexto de fortes incentivos globais à tomada de risco. Neste caso, diante de um cenário de incertezas globais e baixa confiança na economia brasileira, trabalhamos com um cenário de fluxos menos abundantes. Mesmo que o cenário político possa trazer um otimismo de curto prazo, a tendência sugerida pelos fundamentos – externos e internos – continua favorecendo a depreciação do real